Retornos Decrescentes

Posted by Shenron | Enquadramento Tecnológico | Thursday 26 June 2008 8:38 pm

O mundo físico é caracterizado por retornos decrescentes, que são resultado da escassez dos objectos físicos. Uma das diferenças mais importantes entre os objectos e as ideias é que estas não são escassas e o seu processo de descoberta não sofre de retornos decrescentes.

Bem, tomemos um determinado pedaço de conhecimento, por exemplo uma peça de software e pensemos nos custos de produção que um fornecedor enfrenta. Se fizermos isso vemos que este pedaço de conhecimento é muito pouco usual numa perspectiva de economia tradicional.

Para fazer a primeira cópia do Windows 2003, por exemplo, a Microsoft investiu milhões de dólares em investigação, desenvolvimento, testes, etc. Mas logo que a Microsoft conseguiu acertar no código fonte subjacente pôde produzir a segunda cópia do Windows 2003 por cerca de meio Euro - o custo de copiar o programa codificado neste “molho de bits” para um CD ou DVD. A partir daí, todas as cópias subsequentes do programa têm o mesmo custo ou até custos inferiores. Por exemplo, se o Windows 2003 fosse distribuído através da Internet, o custo de todas as cópias adicionais seria basicamente nulo. Por isso, a primeira cópia custa-lhe milhões de dólares, mas todas as outras cópias são “gratuitas”, independentemente da quantidade que produzir. Isto é muito diferente da economia física, em que uma parte importante do custo de cada um dos bens advém do processo de efectuar uma cópia adicional desse bem.

Tradicionalmente, em economia, partiríamos do princípio de que existem um ou dois líderes numa área cujo sucesso atrai muitas outras empresas e que o segmento da indústria, enquanto um todo, cresceria e beneficiaria com o aumento da concorrência.

Mas poderá perguntar-se: e se uma empresa açambarcar todas as reservas de minério e se tornar monopolista do cobre a nível mundial? A empresa que fizesse isso produziria até um ponto em que se tornaria cada vez mais caro. Outras empresas seriam atraídas para o mercado e poderiam produzir e vender o seu produto mais barato. Quando as empresas enfrentam custos crescentes e retornos decrescentes, nenhuma delas consegue, de forma isolada, fornecer o vasto mercado mundial. Se o tentar fazer, terá de enfrentar desvantagens de custo cada vez maiores relativamente aos seus competidores.

Pensemos nos sistemas operativos e no mundo dos computadores por um momento. Imaginemos que temos uma empresa, como a Microsoft, que vai produzir o Windows 2003. Uma vez que produza a sua primeira cópia não enfrenta qualquer desvantagem de custo. Pode produzir milhões de cópias do Windows mediante um pequeno custo adicional. Pode, na verdade, fornecer todo o mercado mundial com sistemas operativos. Provavelmente será mesmo mais fácil para a Microsoft, porque, quanto maior for a dimensão do seu mercado mais atraente se torna a adopção do seu software.

Esta diferença entre indústrias de retornos decrescentes e indústrias de retornos crescentes muda completamente a dinâmica da concorrência. Sob condições de retornos crescentes a concorrência é conduzida por várias empresas que tentam capturar a maior quota de mercado o mais rapidamente possível e ser as primeiras a desenvolver um produto e a inundar o mercado com ele, mesmo que inicialmente tenham perdas.

O Conhecimento

Posted by Shenron | Enquadramento Tecnológico | Thursday 26 June 2008 8:36 pm

Uma das características do conhecimento pode ser resumida pela frase de Isaac Newton (1642-1727), onde este afirmava que via mais longe porque conseguia estar “de pé em cima dos ombros de gigantes” (”Standing on the Shoulders of Giants”). Por outras palavras, o seu conceito era o de que o conhecimento se constrói sobre si mesmo, o que significa que, à medida que vamos aprendendo nos vamos tornando cada vez melhores a descobrir coisas novas. Também significa que não existem limites para aquilo que podemos descobrir.

Durante milhões de anos tivemos essencialmente a mesma quantidade de coisas físicas. Hoje fazem-nos acreditar que se estamos mais ricos é porque temos uma quantidade maior dessas coisas físicas. Porém, na realidade, isto não é verdade. Se pensarmos em termos de física, a lei da conservação da matéria e da energia (Lei de Lavoisier - 1785) diz que temos essencialmente a mesma quantidade de coisas que sempre tivemos.

Pegámos na quantidade de matéria física que tínhamos à nossa disposição e redispusemo-la. As ideias são as receitas que utilizámos para redispor as coisas, para criar mais valor e riqueza. Por exemplo, temos ideias acerca das formas de fabricar aço, combinando ferro com carbono e alguns outros elementos. Temos ideias acerca da forma de pegar na areia (base do silicone) - um elemento abundante, que até há pouco tempo não tinha valor - e transformá-la em chips semicondutores.

Temos então matérias-primas que são finitas e escassas e, por outro lado, temos ideias ou conhecimento que nos dizem onde utilizá-las. Quando afirmo que existem sempre coisas novas para descobrir quero dizer que existem sempre novas receitas que podemos encontrar para combinar as matérias-primas de forma a torná-las mais valiosas para nós.

Estar em pé sobre os ombros de um gigante diz-nos que podemos tirar vantagens para aumentar os retornos no processo da descoberta. Mas poderia ter acontecido que, com cada nova descoberta, se tivesse tornado cada vez mais difícil fazer novas descobertas. Nesse caso teríamos, em determinada altura, desistido. É evidente que isso não aconteceu. De um século para outro os índices de mudanças tecnológicas e de aumento de rendimento per capita têm aumentado.

O Progresso Científico

Posted by Shenron | Enquadramento Tecnológico | Thursday 26 June 2008 8:34 pm

Os fantásticos progressos científicos conseguidos nos últimos 50 anos têm vindo a desenvolver significativamente as nossas visões de um futuro digital. Este fenómeno é, apesar de tudo, recente na história da humanidade. Iniciado por volta de 1800, com raras excepções anteriores de vulto como Leonardo da Vinci, o processo de previsão da evolução tecnológica parece ter sido quase sempre gerado a partir do mesmo progresso tecnológico.

Hoje em dia, a escala e o risco deste jogo são enormes. O investimento em investigação tecnológica, só nos Estados Unidos, é de 160 mil milhões de dólares por ano. Há cerca de 33 milhões de patentes no mundo e 1 milhão de novas patentes é adicionado a este número todos os anos. O risco envolvido é também de vulto: cerca de 80% dos novos produtos não chegam a ser um sucesso comercial e aqueles que o atingem estão cada vez mais ameaçados de obsolescência tecnológica, o que não seria tão terrível se não se tivessem com isto perdido também completamente de vista os maiores sucessos de avanço tecnológico das últimas décadas, como os telemóveis ou os interfaces gráficos (Dados segundo o IDC). Não há estrelas da previsão tecnológica, ao contrário do que acontece nos mercados bolsistas.

O obstáculo fundamental para a previsão tecnológica é o de que o percurso de evolução de uma tecnologia está pejado de bloqueios e de elementos desconhecidos; muitas tecnologias morrem mesmo antes de sair dos laboratórios, outras, embora promissoras e desenvolvidas sob a forma de investigação pura, são vulneráveis a cortes orçamentais, as tecnologias que chegam ao mercado e não têm compradores garantidos e muitas vezes não os conseguem encontrar; muitas ainda nascem nos berços mais improváveis, resultado de simbioses estranhas de diferentes ramos da ciência, ou não se desenvolvem simplesmente porque os custos de mudança dos consumidores para a nova tecnologia ainda são demasiado elevados.

A principal diferença entre as previsões tecnológicas e a ficção científica é a de que as primeiras são, por vezes, vendidas erradamente como ciência. A segunda não tem essa pretensão.

Por outro lado, só tendo por base esta noção de Capital Conhecimento é que as Sociedades de Capital de Risco se poderão assumir como um instrumento determinante no desenvolvimento das Tecnologias de Informação e simultaneamente um elo fundamental na formação da Sociedade do Conhecimento.

Perspectivas de Futuro

Posted by Shenron | Enquadramento Tecnológico | Thursday 26 June 2008 8:33 pm

Os avanços que se têm registado nos últimos tempos ao nível do tratamento das informações e das comunicações estão a abrir novas e interessantes possibilidades na transição da estrutura corporativa integrada da Economia Industrial, para a estrutura em rede da Economia Digital.

Uma multiplicidade de bens, serviços e processos estão a ser transformados através da integração e da utilização das tecnologias que se encontram ao dispor da Sociedade de Informação.

Neste cenário, um país que pretenda ser competitivo a nível mundial necessita dominar quer a oferta quer a utilização das Tecnologias de Informação, sob pena de ser ultrapassado nos processos de decisão que irão ter efeitos na evolução da sociedade do próximo milénio.

Só que o desenvolvimento das Tecnologias de Informação, ao apresentar uma dinâmica que lhe é muito própria, necessita de requisitos fundamentais como sejam a facilidade de utilização, a fiabilidade, a interoperabilidade e, acima de tudo, a acessibilidade de preços que se encontram muito aquém em Portugal, para não dizer na própria Europa, de modo a permitir que estas tecnologias se instalem amplamente em todas as áreas.

É assim necessário um empenho fortíssimo das organizações estatais e empresariais ao nível da investigação, desenvolvimento tecnológico, demonstração e aceitação das tecnologias, que permita a criação de infra-estruturas, software e serviços acessíveis e utilizáveis por qualquer pessoa, em qualquer hora e lugar, seja para fins empresariais ou particulares.

A existência destas condições, aliada ao espírito empreendedor que tem caracterizado a nova geração de quadros portugueses, muito mais informada e formada que a média da população em geral, irá contribuir para que a economia portuguesa assista ao aparecimento de novas empresas atrevidas face à Internet, Inovação e Internacionalização, que irão beneficiar do aumento da riqueza que a nova Economia Digital tem vindo a proporcionar.

No entanto estes jovens empreendedores com talento, boas ideias e bons produtos devem poder encontrar financiamentos adequados em Portugal, pelo que devem ser encorajados urgentemente, entre outros, pelo aparecimento dos “Business Angels” e uma forte indústria de Capital de Risco que facilite a entrada desta geração E-Business nos mercado globais do séc. XXI, uma vez que os financiamentos tradicionais oferecidos pelas entidades bancárias não se encontram adequados a apoiar os activos intangíveis que caracterizam a economia digital, como sejam, a força das ideias, a perspectiva de negócio e a capacidade empresarial.

É assim que o Capital de Risco (”Venture Capital”), ao adicionar aos projectos não só o capital financeiro, mas fundamentalmente o Capital Conhecimento - resultante do know-how do negócio, redes de contactos nacionais e internacionais, capacidade de conseguir aprender a obter vantagem económica da quantidade crescente de informações disponíveis - se apresenta como um instrumento de desenvolvimento fundamental de todas as “start-ups” de base tecnológica e consequentemente das Tecnologias de Informação e Comunicação. Se o conhecimento é a maior fonte de riqueza, os jovens empreendedores portugueses não devem deixar de aproveitar as vantagens que o Capital de Risco proporciona, pois permitir-lhes-á obter junto destas entidades activos que os ajudam a produzir e processar esse conhecimento.

O Mundo Global

Posted by Shenron | Enquadramento Tecnológico | Thursday 26 June 2008 8:30 pm

Chegámos à época das grandes mudanças e das grandes oportunidades. É nessas alterações profundas que são forjados os impérios e, hoje, novos impérios significam novos impérios empresariais.

Das 100 maiores economias do mundo mais de metade são empresas e não países. Na empresa multinacional típica mais de 90% dos accionistas são “sleeping partners”. Legitimados por esta abstenção dos accionistas, os gestores detêm o poder desses novos impérios que assentam na conquista de mercados, nas fusões e aquisições, nas redes e na nova tecnologia.

Por outro lado a nova tecnologia está a gerar uma nova elite. Os “Knowledge Workers” (trabalhadores do conhecimento) são uma franja de profissionais, altamente preparados e de mobilidade global, aptos a produzir uma cada vez maior quantidade de produtos, aumentando a sua qualidade e descendo os seus preços em simultâneo. Para atrair esta elite geradora de riqueza os países e as regiões competem entre si, os incentivos fiscais e as isenções de impostos são as armas mais utilizadas. Assim, para esta elite móvel, a tendência aponta para uma descida dos impostos e não para a sua subida.

Com acesso instantâneo à informação, as regiões, as cidades, as empresas e os novos empreendedores da sociedade digital estão a ligar-se directamente à economia global. O trabalho rotineiro está a ser automatizado ou exportado para o Sul. Novas classes sociais estão a emergir. Para além do topo, detentor do conhecimento e das empresas, existe uma enorme massa consumidora, de mobilidade reduzida e ansiosa perante o novo mundo. Existe ainda uma classe social de menor qualificação, excluída da pós-modernidade e que tende a concentrar-se nas cidades, fazendo subir a insegurança.

A localização global de tudo tornou-se a lógica competitiva do século XXI. Da produção ao marketing, passando pela tecnologia e pelo pagamento de impostos, tudo tende a localizar-se onde tenha mais sentido. Avaliando todo o planeta, a empresa global desloca os seus processos e funções assim que detecta subidas no rácio output/input. Com menos terra, pessoas, dinheiro, equipamento, matérias-primas, espaço, tempo, energia e stocks, as empresas líderes obtêm produtos cada vez melhores e mais baratos. O resultado desta mutação é uma maior eficiência da economia global, que se traduz na baixa generalizada de preços dos produtos e dos serviços, ou seja, o resultado desta tendência é, afinal, a sua força.

No mundo do trabalho a tendência é a queda do salário/hora e a ascensão da remuneração em função dos resultados. O emprego para toda a vida desapareceu e a vida profissional como sequência de vários full-time também tende a desaparecer. Os portfólios de trabalho e os contratos de prestação de serviços especializados são os modelos em desenvolvimento.

Este é o novo mundo. Um mundo fascinante e sofisticado. Um mundo bárbaro e selvagem. Neste mundo, a capacidade de eliminar a ambiguidade, de perspectivar os factos e dar um sentido ao futuro constitui a derradeira fonte da vantagem competitiva. Como disse Trotsky, «a história é a selecção natural de acidentes».

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